Executivos são felizes ou aprenderam à viver sofrendo?

Felicidade,Trabalho e Criatividade – Curso de Liderança.

 

O progresso tecnológico e organizacional permite a produção de maior número de bens e serviços com menos trabalho humano. De um lado isto determina que fora das empresas o desemprego aumente. De outro lado, dentro das empresas determina o fenômeno das horas extras.
De fato dentro das empresas os empregados podem produzir muito mais em menos tempo. Isto quer dizer que hoje qualquer executivo, após 4 ou 5 horas de trabalho, poderia ir embora e dedicar-se à outra atividade qualquer como uma atividade cultural, estudos pessoais, atividades laborais ou mesmo o convívio familiar, enfim o que julgasse mais relevante para a sua vida neste tempo livre.

Mas acontece que existe um padrão cultural, herdado da revolução industrial em seus primeiros momentos, que escraviza a todos, incluindo os executivos de nível médio, líderes e gestores da organização. Estes profissionais se acostumaram e introduziram em seus padrões culturais, que seu ambiente produtivo é somente no escritório. Acrescente à isto as dificuldades de relacionamento familiar ou mesmo a aversão às atividades domésticas sempre, culturalmente, consideradas atividades inferiores, ou de qualidade inferior. Portanto relegadas à suas respectivas esposas. Geralmente os executivos tem desprezo por suas esposas. Além de um comportamento machista, explica por que muitas vezes suas esposas os trocam por outros. Como o executivo está sempre longe de casa, as esposas são obrigadas à procurar por outros relacionamentos de circunstância na tentativa de preencher um vácuo de companhia e convívio. Nada mais humano e natural.

Isso implica que todo executivo finge para si mesmo que tem muito trabalho. De fato após 4 ou 5 horas de trabalho concentrado e bem planejado, já poderiam dedicarem-se à outros afazeres da vida.
Realizei uma pesquisa com onze empresas italianas e o resultado foi que o trabalho dos executivos, dos médios executivos, é um trabalho que leva no máximo 5 ou 6 horas. Mas na Italia o executivo fica muito mais tempo no trabalho, ultrapassa o final do expediente deliberadamente para demonstrar fidelidade ao chefe e à empresa, ou seja, faz horas extras desnecessárias e muito pouco produtivas para as próprias empresas, além de estressá-lo ao longo do tempo. Não posso afirmar sobre outros locais pois esta pesquisa a realizei na Italia, mas creio que seja um problema cultural com os executivos das organizações ao redor do mundo. Se observar bem, o comportamento executivo é muito linear e não tem tantas variações culturais assim, é um comportamento pobre mesmo.

Muito bem voltando ao resultado da minha pesquisa, todo executivo culturalmente estica suas horas de trabalho para 10 ou 12 horas, as vezes até mais e vive reclamando que não tem tempo para nada e nem para o convívio familiar. Um comportamento que transforma sua vida em algo improdutivo, pouco inteligente e falso.
A atividade que poderia ter realizado em 5 ou 6 horas ele estica para 10 ou 12 horas. Como ele comporta-se neste tempo que fica a mais na organização? O que de fato ele faz?
Normalmente são duas coisas que pude perceber na minha pesquisa.

  • Ou faz reuniões, geralmente inúteis.
  • Ou então cria normais e procedimentos para os outros colaboradores da organização.

O resultado é que a empresa aos poucos vai se tornando um grande emaranhado de normas e procedimentos, o que chama-se no meio empresarial de engessamento. A empresa acaba por construir um paradoxo que irá sufoca-la. Procura a produtividade e excelência mas constrói o engessamento.
Dei uma consultoria à uma grande empresa Italiana do ramo metal mecânico aonde tive reuniões mensais com o presidente e seus 10 maiores executivos e alinhamos uma meta mensal inegociável. Cada um deveria trazer às nossas reuniões 2 normas à serem eliminadas da empresa. Sendo onze pessoas, iríamos eliminar à cada mês 22 normas da organização. Passaram-se mais de dois anos, eliminamos mais de 200 normas e a empresa não foi impactada por nenhum resultado negativo em função de eliminarmos tantas normas. E ainda foram encontradas muitas outras normas que poderíamos eliminar.
Excesso de normas, arruína a vida das empresas, mas é o resultado natural de executivos que procuram preencher seu tempo improdutivo com uma falsa produtividade.

Excesso de normas e excesso de horas extras quase sempre são formas dos executivos mostrarem sua relevância para a organização e para os seus chefes num arroubo pueril de insegurança da própria posição que ocupam na organização. É o querer mostrar-se importante para a manutenção do cargo. Se acha que não, ainda afirmo que é o mal da maioria dos executivos e das lideranças nas organizações.
Ou, ainda para este ganho de relevância, fazem-se de pagem dos chefes. Extendem seus horários para fazer companhia aos seus chefes. Estes chefes por sua vêz estão ficando até mais tarde para fazer o mesmo com quem está acima deles e assim por diante. Aqui mostro claramente a criação da cultura de ficar até mais tarde no procedimento padrão dos executivos médios das organizações.

O fato é que horas extras geram muita tristeza nas organizações e minha percepção clara é a de que executivos felizes são uma raridade. Estão sempre estressados, tomando remédios para pressão ou doenças coronárias, tem sérios problemas de relacionamento familiar, tem um círculo de convívio social péssimo e baseado somente em interesses, tem amantes que compram com seu dinheiro ganho nas horas extras e tomam estimulantes desde as drogas clássicas dos executivos como a cocaína até os remédios estimulantes contra a depressão em doses exageradas.
Para tornar sua vida ainda mais árida, como não conseguem o prazer com outro ser humano baseado nos seus relacionamentos, acabam por tornarem-se materialistas. Claro a única fonte de prazer legítimo acaba sendo em possuir coisas, bens e propriedades. A coisa mais comum ao vermos um executivo destes ao final de sua vida é o comportamento clássico do arrependido, que não aproveitou o que tem e não pode voltar atrás para aproveitar melhor o convívio com quem poderia lhe dar um significado melhor para viver.

Executivos felizes são raros.

Como um efeito colateral negativo, acabam por se convencerem que a função da organização não é promover a felicidade do funcionário, claro são infelizes. É esta a leitura que sua cultura distorcida, seu péssimo hábito de trabalho, sua insegurança e sua infelicidade foi criando em suas própria mente ao longo do tempo.
Observei ainda que as organizações que tem mais êxito nos negócios são aquelas em que seus funcionários são mais felizes, e não é uma questão salarial, mas sim uma questão de como nos comportamos e como construímos nosso ambiente de trabalho. Aonde as pessoas são mais felizes são também mais criativas e num mundo que demanda por inovação, a criatividade dos colaboradores é fundamental para o sucesso da organização. Além do que pessoas felizes costumam serem mais eficazes em qualquer atividade à que se dediquem.
Naturalmente se cria um círculo virtuoso que é o oposto das empresas engessadas e administrada por executivos com seu espectro cultural ultrapassado.
Em ambientes tensos e tristes a criatividade simplesmente não acontece. A organização fracassa ou vive do sofrimento dos seus colaboradores.

 

O Curso de Liderança Contemporâneo.

Muito possivelmente alguns leitores não gostaram do que leram acima, é natural. Principalmente se forem líderes ou gestores.

Estas são as palavras do Professor Domenico De Masi. Todo o texto acima.

Domenico De Masi que aos dezenove anos, já escrevia, para a revista Nord e Sud, artigos de sociologia urbana e do trabalho. Aos 22 anos, lecionava na Universidade de Nápoles. Assumiu o posto de professor de sociologia do trabalho na Universidade de Roma “La Sapienza”. Entre 1978 e 2000, dirigiu a S3.Studium, escola de especialização em ciências organizacionais que fundou. Um grande influenciador da gestão contemporânea de pessoas nas organizações.
Escreveu diversos livros, alguns deles tidos como revolucionários. Entre eles, se destacam:

  • Desenvolvimento Sem Trabalho.
  • A Emoção e a Regra.
  • O Ócio Criativo.
  • O Futuro do Trabalho.

Em 2010, tornou-se cidadão honorário da cidade do Rio de Janeiro, no Brasil.

De Masi toca no ponto crucial que muitas Empresas de Treinamento e Desenvolvimento procuram construir junto às lideranças empresariais, são as respostas para:

  • Como aproveitar da melhor forma o tempo produtivo?
  • Como tornar o trabalho em algo que traga prazer?
  • Como fomentar a criatividade e inovação como motor da organização e de suas equipes?

Pode ser que esta construção não seja tão simples, mas tenha certeza de que não será fazendo horas extras, indo ao cardiologista para não morrer antes da hora, não curtir sua família, se drogar ou tomar remédios contra a depressão etc…
Aqui esbarramos, amparados por De Masi que um dos desafios cruciais das lideranças contemporâneas é a reconstrução dos próprios padrões culturais e relacionamento com o trabalho, por consequência com colaboradores. E padrões culturais não se transformam realizando-se eventos motivacionais na organização, se assim fosse tudo seria tão simples, mas não é. A cultura formada por anos de experimentações não pode ser mudada num final de semana, esta é a notícia ruim. Mas pode ser mudada, esta é a notícia boa.

Por esta razão é que o Treinamento para Líderes não pode ser um esforço isolado na organização, pois a reconstrução de um espectro cultural pode demandar tanto tempo quanto sua construção primária e uma ação isolada é incapaz, por mais profunda que seja, de realizar tal tarefa.
As Empresas de Treinamento Empresarial tem esta tarefa pela frente, ajudarem as organizações na tarefa de adaptação à novos momentos culturais e a novos desafios inserindo em seus portfólios os agentes motivadores destas mudanças. Acontece que na medida em que nossos desafios vão se tornando mais complexos, novas fórmulas hão de serem gestadas para lidarem com eles. Não somos contra fórmulas clássicas como as abordagens motivacionais, mas temos de admitir que chega um momento em que as velhas práticas começam à falhar e a única coisa que pode lidar com determinadas situações são mudanças culturais que, sempre, acontecem de médio ou longo prazo.

Se pudéssemos fazer um download de uma nova construção cultural, de algum banco de dados qualquer, seria uma maravilha. Todas as nossas respostas comportamentais lá estariam à nossa espera, mas ainda não chegamos à esta fase de nosso desenvolvimento. As respostas comportamentais são fruto de nossa cultura e a única forma da construção de uma nova cultura é com o esforço diário e constante da organização.
Estamos caminhando à passos largos, se comparado aos nossos antepassados, basta uma rápida comparação do que é um Curso de Gestão de Pessoas ou um Curso de Liderança em nossos dias com o que era nos anos 1980 ou 1990. À primeira vista verá uma mudança radical da abordagem produtiva para a abordagem criativa, da estrutura hierárquica tradicional para as estruturas matriciais, do enfoque técnico (era da informação) para o enfoque comportamental e assim por diante.
Nós, do Curso de Liderança, publicamos as dissertações do Professor De Masi como impulso e tentativa de gerar reflexões importantes em nosso leitor, para que possa chegar às suas próprias conclusões acerca do tema.

Quem sabe não conseguimos descobrir uma forma mais inteligente, criativa, produtiva e prazerosa de nos relacionarmos com o trabalho?

Quem sabe?

 


Fonte da Matéria : TrainerBr

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