A Descoberta da Gestão na Cerveja Artesanal

Gestão e Estratégia. Mandamentos para Tudo.

 

Depois da euforia da chamada “revolução”, microcervejarias têm de encarar o planejamento estratégico.

Altair Nobre
Revista Beer Art
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Definida como “a revolução da cerveja artesanal” , a multiplicação de microcervejarias e de conquistas para esses pequenos fabricantes vivia uma euforia no Brasil em fevereiro de 2015. Um dos símbolos dessa fase, uma cervejaria de Belo Horizonte com trema no nome como servindo para corar o seu apego à arte, a Wäls, tinha 10 meses antes sido a primeira (e até hoje única) brasileira a conquistar uma medalha de ouro na Copa do Mundo da Cerveja (World Beer Cup).

Com a medalha para a Wäls Dubbel, essa pequena cervejaria mineira enchia de orgulho e esperança quem enxergava nela uma evidência de que um dia as gigantes do segmento, principalmente a Ambev, seriam derrubadas pela cerveja artesanal. Os seguidores dessa crença foram desmentidos pela realidade. Não só a Wäls não ameaçou a gigante cervejeira, como foi ela própria comprada pelo grupo. Essa transação, anunciada em 10 de fevereiro de 2015, marcou um ritual de passagem do segmento da cerveja artesanal para a vida adulta no mercado. Foi a oportunidade de entender a importância da gestão e do planejamento estratégico. Só a paixão pela cerveja artesanal não move barris.

 

Novos Tempos – Novos Cenários.

A então vanguarda do movimento cervejeiro ficou desorientada. Mas, à época, especialistas em gestão cervejeira ouvidos pela Revista Beer Art trouxeram luz. Em vez de um tom de velório, Túlio Rodrigues, expert em marketing cervejeiro, ex-executivo da Ambev, saudou o “o oceano de oportunidades”, com a ampliação do interesse pela cerveja artesanal.

Mas ele fez uma advertência para a necessidade de gestão: “O consumidor ficará mais exigente e criterioso”. “Os fabricantes de cerveja artesanal vão ter de treinar e capacitar melhor os funcionários. Isso é uma decantação natural, que ocorreu em outros segmentos. Acelera a profissionalização.”

Dois anos e meio depois, o Brasil já tem mais de 600 cervejarias. Embora em menor escala, espelha um movimento de mercado ocorrido nos EUA. Agora a concorrência é não só com a Ambev, que aliás já arrebatou também outra cultuada marca de quase duas décadas de cerveja artesanal, a Colorado. A competição se acirra mesmo entre as micro e pequenas cervejarias, embora conquistas como o regime tributário diferenciado para as micro empresas, o Simples, venha ajudar.

Mas o mercado é dinâmico, os jogadores se multiplicam, e a cada momento surgem táticas novas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a AB InBev (o braço internacional do qual a Ambev faz parte) ingressou no mercado de cerveja caseira. Vende para os homebrewers kits para eles fazerem cervejas de ex-cervejarias artesanais adquiridas pelo grupo, como a Goose Island. A ação faz parte da estratégia de dominar o ecossistema cervejeiro. Uma mostra de que o mundo dos negócios tem espaço para paixão, mas as disputas são bem mais duras do que o coração sozinho poderia suportar. É preciso ter olhos para distinguir com atenção os movimentos do mercado, e cérebro para conceber as melhores táticas. O maior inimigo de um fabricante de cerveja artesanal não são os gigantes cervejeiros: é a falta de gestão.

 


Fonte desta matéria : Revista BeerArt
Editor : Altair Nobre.