Coaching – Auto Ajuda 2.0


Coaching e Auto-Ajuda

Pergunta enviada em 18/10/17 :

Porquê vocês não tem em seu portfólio o coaching? São contra o coaching? Acham que é somente mais um produto empresarial para se fazer dinheiro? Acham que é modismo? Recomendariam para alguém?

Nossos treinadores, todos, fizeram coaching. Não temos nenhuma restrição com o coaching, só que entendemos o desenvolvimento humano como algo um pouco mais complexo do que a aplicação de técnicas de coaching.
Quando o fizemos foi bom, conhecemos as técnicas e pudemos avaliá-las. Hoje já não faria mais sentido para nós, conseguimos ir adiante e desenvolvermo-nos em outras instâncias.

As coisas no seu devido lugar.

À priori o coaching não é uma coisa ruim. As vezes precisamos de ajuda para lidar com problemas do dia à dia e a idéia do coaching partindo do princípio que pode ajuda-lo com problemas pontuais, focando em determinadas atividades e utilizando-se de técnicas específicas para a tratativa destes problemas, não é uma proposição ruim.
Coaching ajuda? Sim sem nenhuma dúvida pode ajudar.
Ajuda a pessoas medianas e individualistas que não querem se aventurar muito profundamente em seus processos de desenvolvimento pessoal e profissional, contemplando a coletividade como mais do que um instrumento para esta finalidade. Podemos afirmar que ajuda à um público específico.
Um ponto importante que deve considerar é que quando aqui falamos individualismo não veja como algo negativo e reprovável, mas sim como uma das fases da vida. Todo ser humano, em algum momento passa por isto.

Como técnica de desenvolvimento pessoal, é melhor o coaching do que nenhuma perspectiva. Se estudar um pouco o coaching, verá que é filho da auto-ajuda e um processo indutivo, algo parecido com uma auto-ajuda 2.0. O coaching, em grande parte, agarra-se à uma técnica de perguntas que remete à Sócrates, a maieutica. Este processo indutivo não tráz nada de novo, somente organiza um processo maieutico num método específico com a adição de alguma roupagem contemporânea. Só que, a indução, ao invés de acontecer através de um livro de auto-ajuda, acontece com um instrutor. O Coach

É algo ruim? Não. Não cremos que seja ruim. Mas temos de admitir que atende à um público específico que quer uma solução rápida.

Não há um padrão para este “rápido” normalmente a proposição inicial do processo de coaching é de duração em média 12 encontros (sessões de coaching) ou 3 meses. Entretanto, dependendo do objetivo do coachee ou do projeto (no caso de empresas), pode durar 6 meses ou até mais de um ano.
Para responder as suas 5 perguntas na ordem em que foram feitas, assim poderemos seguir adiante :

  • Não temos este serviço à disposição porquê não é nossa proposição de negócios.
  • Não somos contra o coaching, mas não somos seus defensores ou achamos que é algo extraordinário.
  • Não achamos que é somente um produto empresarial para se fazer dinheiro, apesar de nascer no ambiente corporativo. Como dissemos atende um público mediano e específico. Podemos levar em conta que em alguns casos pode até ser explorado indevidamente, mas cremos que não em todos os casos.
  • Não achamos que é um modismo. Achamos que é mais uma ferramenta para um momento específico do indivíduo e que, no nosso caso não agrega. Para alguém pode agregar. Uma chave de fenda não serve para tudo e nem para todos, o coaching também não.
  • Recomendaríamos sim, mas dependendo do caso. Para pessoas que estão em início de carreira, ingressando no ambiente empresarial e querem conhecerem técnicas ainda, para elas, desconhecidas e que possam, de alguma forma ajudá-las, porém sem expectativas de fazerem milagres ou grandes transformações em suas vidas.

 

Indo um pouco mais adiante.

Fique de olho no título “Stand Firm: Resisting the Self-Improvement Craze”.
O livro ainda não saiu no Brasil, mas em tradução livre o título poderia ser “Fique firme: Resistindo à mania do autodesenvolvimento”. Seu autor é o escritor, professor da Universidade de Aalborg e filósofo dinamarquês Svend Brinkmann.
Pode adquirí-lo on-line pela amazon.

Lemos o livro que elabora uma abordagem interessante, madura, profunda e desmistificadora em torno do coaching e sem dúvida, muitos passos à frente do coaching.
Svend toca no ponto crucial logo de saída e que muito pouca gente tem interesse, ou conhecimento para contemplá-lo, por esta razão continuará sendo um ponto crucial pouco tratado e o coaching deverá ser, por um bom tempo, um bom negócio para quem pretende fazer algum dinheiro com ele e ajudando pessoas medianas a lidarem com seus problemas pessoais e profissionais, mesmo que com resultados não tão aferíveis e consolidados.
Qual é este ponto crucial? Agora que tocamos no assunto, teremos de desenvolvê-lo para nossos leitores. Svend parte do princípio de que uma parcela quase que total da indústria da autoajuda e do coaching só contribuem para reforçar o problema que elas próprias dizem combater: a infelicidade causada pelo individualismo e pelo desinteresse em soluções coletivas. Aqui de fato está o nó da questão do sucesso, só que numa profundidade que exige um pouco mais do que mentes medianas para sua tratativa e compreensão.

Ponto final, somente nesta afirmação já temos pano para muitas, mas muitas mangas. O restante do livro faz outras elaborações complexas e que valem à pena serem examinadas.

Para quem quer uma solução mais fácil para problemas complexos o coaching é a escolha certa. Se irá ou não resolver problemas de desenvolvimento humano e profissional é outro papo e um assunto para o coachee resolver com o seu coach, mas é a solução mais rápida que há à disposição.

Se quiser entender cenários, desenvolver-se pessoalmente, profissionalmente, culturalmente e socialmente aahhhhh!!!! Aí a conversa muda, o nível de complexidade é bem maior. Não há soluções estáticas. É necessário um portfólio de conhecimentos que as pessoas medianas, normalmente não tem. Além do conhecimento, valores que pessoas medianas também não tem ou tem dificuldades enormes em compreendê-los. E muito, mas muito e árduo trabalho.
Aqui já se espanta uns 80 % dos interessados em resultados rápidos, migram para o coach que é mais aderente às suas expectativas.

Complexidades contemporâneas nas organizações.

Todos nós queremos ter um emprego que nos traga algum retorno financeiro e chances de aprender algo a mais do que sabemos.
Não há nenhum problema em ser produtivo, em adquirir novas competências para trabalhar melhor.
O problema é que o discurso sobre maximizar a produtividade e o desempenho profissional/pessoal tem uma consequência paradoxal inevitável. É um discurso que nunca dá um termo à sua proposição, o que torna as pessoas cansadas de ouvirem o mesmo discurso anos à fio, qualquer que seja a organização aonde estejam. Empresa A tem discurso = da Empresa B,C,D e assim por diante.
Estar numa organização é como estar em todas, muda um benefício aqui, uma pessoa ali mas a ladainha, discurso é o mesmo e sem perspectivas de mudar, em resumo cansa por repetição ou pela falta de um discurso mais inteligente. Pessoas e também as organizações ficam intrinsecamente tristes, pobres no discurso e nas proposições mas todas repetindo que querem inovar pois o que fazem nunca é o suficiente para o “sustentável”. Inovação e criatividade não combinam com ambientes tristes e discursos repetitivos.

Como consequência, o suficiente para o profissional ser sustentável sempre está indefinido e no futuro. Isto causa um paradoxo, uma insegurança indefinida e um objetivo que nunca é atingido ou torna-se obsoleto no momento de sua realização. Imagine se as pessoas fossem tratadas assim. Será que são?
O suficiente sempre é inaferível e nunca está no presente, ou seja, não está ao alcance. Existe coisa mais frustrante do que correr atrás de algo que nunca estará ao seu alcance e nem no presente? E pior, ao longo dos anos e sem nenhum horizonte de que irá mudar?
Resultado = pessoas menos criativas, menos eficientes e bem próximas de frustrações e outros problemas emocionais decorrentes deste estado paradoxal.

Sabe quando o coaching irá aprender á lidar com isto? É preciso muito mais do que 12 ou 15 encontros de 2 horas não acham?

Complexidades humanas e o coaching.

Seres humanos fazem um bom trabalho quando se sentem seguros, quando sentem que podem confiar nos seus pares, nos seus colegas e gestores. A economia moderna precisa de pessoas que tenham coragem de desenvolver novos produtos e novas ideias. Todo mundo sabe disso. Mas o sistema que temos não tem dado sustentação a esse fato. Porquê?
Falta de conhecimento e investimento no que realmente importa. Investir em gente é um belo discurso, porém quando se vão aos fatos as coisas não acontecem como imaginamos.

Talvez seja uma herança da velha sociedade industrial aonde os empregadores ainda falem de seus funcionários como “recursos humanos”. Como se pessoas fossem recursos comparáveis e que se deve explorar, usar, otimizar e extrair o máximo que se pode. O que muitos gestores desprezam é a capacidade de leitura subjetiva que todos os seres humanos possuem e, ao observarem que as organizações tem esta abordagem sobre o elemento humano, começam à identificar com clareza as pessoas para as quais este discurso é o mais conveniente e que alinham-se à organização para seu interesse próprio, de ganho. A consequência é que esta conveniência impôe uma aura de pouca credibilidade aos discursos repetidos dos gestores e líderes das organizações. Todos repetem, em uníssono, o mesmo discurso e por conveniência. Ninguém, com uma capacidade subjetiva mínima, dá credibilidade à isto.

É tão óbvio, mas ao mesmo tempo tão sutíl, que gestores e líderes se tornam incapazes de lidarem com esta nuance delicada das relações coletivas e seus alicerces. Gestores estão focados nas suas carreiras e com um olho no coletivo como instrumento para o seu sucesso. Uma verdade para a qual ainda não tem a mente desenvolvida o suficiente para mudarem e muito menos lidarem com quem as percebe. Resultado = Discurso pobre e fórmulas prontas e disfuncionais.
Parece um jogo de ganho de tempo, o tempo todo. Um jogo estratégico e nada mais. Pessoas, subjetivamente, percebem isto. E uma relação de enganos mútuos e estratégias de convencimento se estabelece no tecido organizacional.
Tratar pessoas como recursos é antiético, pessoas não são recursos, são seres humanos, com dignidade e direitos, elas não são coisas. Quando entra a ética na conversa dos 20% corajosos, que ficaram lá encima, se vão pelo menos mais uns 15%, ou mais. Aí você percebe quem nas organizações realmente tem alguma capacidade para lidar com um problema humano tão complexo e que exige muito mais do que mentes medianas. Usamos um exagero percentual, é claro, somente para exemplificar corretamente o tema, não há estatísticas sobre esta questão. Mas se houverem, deverão mostrar um resultado mais desanimador ainda.

Improdutividade.

Em segundo lugar, tratar pessoas como recursos é uma postura é improdutiva, para não dizer burra mesmo. Vá em Domenico De Masi e verá um material farto e estatísticamente embasado. Em quase todos os países, há estatísticas assustadoras sobre a quantidade de profissionais com depressão, ansiedade, estafa por causa dos seus empregos. A maioria deles, para não dizer todos, passaram (ou ainda passam) por seus processos de coaching e nem por isto conseguiram uma forma mais inteligente de se relacionar com pessoas e o desgaste de suas atividades.

Pessoas e profissionais estressados, deprimidos, estafados e doentes são agentes da improdutividade. Como este é o estado geral, a comparação com o criativo e produtivo cria os gênios e os destacados.

Mentes sofisticadas – A real demanda.

A real demanda não é pelo coaching, mas sim por mentes sofisticadas. Na vida moderna, precisamos trabalhar coletivamente, com autonomia, com horários flexíveis e o mais difícil : mentes sofisticadas e flexíveis com motivações que não sejam infantilizantes.
Se você perguntar para um coach como Tony Robbins, um dos mais famosos do mundo, ele dirá que sucesso é fazer o que você quer, quando você quer, onde você quer, com quem você quer. Muito bem é o máximo da infantilização do profissional e faz um enorme sucesso.

Pare e pense.

Tem filhos? Se não tiver, observe de outros que os tenham.
Quem quer fazer o que quer, quando quer, onde quer, com quem quer?
Parece com os infantes? Com as crianças?

A observação lógica é que Tony Robbins está falando para pessoas com mentes infantilizadas. Como são a maioria e não investem numa pesquisa mais séria sobre o próprio ser humano e suas complexidades garantem farto público para o coaching nos modelos comuns propostos em nossa contemporâneidade.

Concluindo.

O que temos contra o coaching? Nada, se existe um público que, por sua condição, demanda por este serviço e pode obter algo de positivo com ele é uma iniciativa válida, até que consigamos um quorum maior de novas mentes no tecido organizacional, mas não espere resultados extraordinários para problemas complexos.

Resultados extraordinários somente consegue-se com mentes extraordinárias. Que se esforçam, lutam para adquirirem conhecimento. Passam por reflexões desafiadoras e disseminam novas idéias e novas abordagens. Porquê numa organização seria diferente?

Só percebemos que o desenvolvimento organizacional é muito mais complexo do que imagina-se, pois agora o fator diferencial não é mais a tecnologia mas a capacidade de inovação. O ser humano com uma nova mente, madura, coletiva e sofisticada que saiba lidar com complexidades da vida, do desenvolvimento e da criatividade coletiva.

Não pode ser uma mente mediana e individualista, apesar do mundo também precisar delas para a realização de muitas coisas.

Todos tem o seu devido lugar, e com o coaching não é diferente.

 


Fonte da Matéria : TrainerBr

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