Liderança Líquida Contemporânea


Individualismo, Liderança e Bauman – Curso de Liderança.

Belíssima pergunta enviada em 23/10/17 :

No capítulo 2 do Livro Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman, que trata do individualismo, ele simplesmente detona a liderança contemporânea e a reconfigura em algo bem menos definido dos conceitos que tínhamos de liderança anteriormente, que já não eram grande coisa.
Se comparar o que Bauman propõe ao que é oferecido pela maioria dos cursos de liderança disponíveis ou você deixa de ler Bauman, um dos maiores pensadores contemporâneos e falecido no começo de 2017, ou vira a as costas para a maioria dos cursos de liderança contemporâneos. Se leram o livro, poderiam comentar o que propôe Bauman?


Caraca!!!!!!! Parabéns.
Sim, lemos o livro e outras obras de Bauman, e revisitamos o capítulo 2 que é o objeto de sua pergunta. Antes de respondê-la, gostaríamos de propor uma interpretação diferente para a própria pergunta.

Interpretação da Pergunta.

Bauman não detona a liderança contemporânea, o que ele faz é a leitura complexa do seu tempo. No tocante aos líderes é de uma precisão e relevância notáveis. Cremos que todos os que pretendem algum dia ministrarem um Curso de Liderança honesto e atual, deveriam visitar a obra deste pensador.

O que de fato acontece é que os profissionais que se dedicam ao Curso de Liderança contemporânea, e à elaboração de seus portfólios, é que se detonam mesmo por não atualizarem-se. Ao ler uma obra tão bem acabada e assertiva, como a de Bauman, o leitor atento acaba por perceber que o que é oferecido ao público que se interessa pelo tema é de muito pouca qualidade mesmo, desatualizado e mais interessado no faturamento que poderá gerar do que o conhecimento que irá transmitir.

Não é á toa que vemos a liderança sendo vendida como habilidade, como comportamento e outras afirmações de baixo espectro como estas.

O fato é que muitas Empresas de Treinamento e Desenvolvimento acabam investindo na falta de conhecimento do próprio público em torno da liderança e apostam que, para quem não tem conhecimento, qualquer conhecimento serve. Algo similar ao “Dilema de Alice” e acabam tendo sucesso mesmo.
Assim é o Treinamento Empresarial, como toda a atividade humana gera os bons (poucos) e os medianos e ruins (maioria). Não se espante, já vimos proposições de Empresas de Treinamento que claramente não agregam valor nenhum à negócio nenhum, mas fazem uma boa massagem emocional nas organizações (como diz Bauman), deixam-nas como os mesmos problemas de antes e são muito bem pagas para isto. A fórmula da aposta que quem contrata não sabe muito bem o que quer, ainda funciona, apesar de a vermos como reprovável e anti-ética.

Cada um tem o seu público e cada público tem os seus filtros, mais ou menos eficazes. Se seus filtros são bons aprendem e se desenvolvem. Se não são bons, sofrem para aprender e se desenvolver.
Assim é a vida.

 

Respondendo à Pergunta.

O comentário que nos sugere é bem complexo e será de interesse somente para quem estuda a liderança até seus fundamentos.
Ensinar o que é a liderança nas organizações não é uma tarefa tão fácil quanto foi no passado.
Bauman disserta, notavelmente, que as lideranças contemporâneas não tem o link sólido, com os liderados, que tinham no passado. Os objetivos à serem atingidos eram, normativamente claros, bem definidos, dentro de conceitos e padrões culturalmente claros à todos, mas com uma característica fundamental que eram as demandas da coletividade. A Liderança era função da coletividade e suas demandas.
À partir desta afirmação fundamental é que começa a leitura do esfacelamento do que era normativamente claro e dos conceitos culturalmente claros e definidos, como consequência a perda do link fundamental entre líderes e liderados. Perceberá que esta afirmação de Bauman desembocará, ao final, numa questão muito delicada da liderança contemporânea que é a construção de significados mútuos. Estes significados mútuos é o que determinará a liderança contemporânea e exatamente o que os portfólios, que hoje são apresentados às organizaçoes, não tem alcance e nem conhecimento para a sua tratativa adequadamente, quando não desembocam nas iniciativas motivacionais que são, por excelência, infantilizadoras.

Quando, no mesmo capítulo, dá o exemplo de Jane Fonda, como a manifestação de um dos arquétipos da liderança individualista contemporânea, dá também a exata noção do que se transformou a liderança em nossos dias. Não mais motivada pelas demandas do coletivo, mas pelo desejo do individual e direcionada para o individual e Bingo!!!!

A demanda do coletivo e o desejo do coletivo não está mais no cardápio de quem pretende liderar, ou se propôe como líder.
Na mesma construção faz um paralelo cultural com Peter Drucker, mas tendo em Drucker não um exemplo de arquétipo, mas um captador e gerador sagaz das tendências empresariais do Sec XX, turbinados por toda uma cultura coletiva que, mais tarde seria também expressa, inconscientemente, pela geração de Jane Fonda. Note que aqui a menção à Jane Fonda não refere-se ao indivíduo, mas ao aspecto cultural de sua geração e expressa por um dos seus símbolos.

O que você deve estar considerando a detonação da liderança contemporânea é exatamente este aspecto da observação de Bauman e por esta razão vê uma dissonância entre o discurso das Empresas de Treinamento Empresarial, que tratam do tema, o que de fato disseminam e suas contradições intelectivas. Se for isto você está correto, não tenha dúvidas disto. Aqui abrimos uma aspas para que pesquise o trabalho de Svend Brinkmann em seu livro “Stand Firm” que toca no mesmo ponto mais diretamente.
Voltando à nossa construção, Bauman toca exatamente na questão entre o objetivo e o significado da liderança, que são exatamente os pontos fracos da maioria dos portfólios disponíveis. Se for um de nossos leitores, verá que temos várias publicações em torno desta abordagem.

A Grave Questão de difícil resposta.

Bauman induz, então, numa questão grave e complexa cujo desenvolvimento é expresso abaixo :

Este estado de coisas é a consequência natural de vivermos num ambiente que vem exacerbando o individualismo à, pelo menos, 200 anos, como consequência gestou toda uma cultura individualista, voltada ao sucesso individual e tendo no Fordismo uma de suas melhores expressões em como se instrumentalizar a massa para o sucesso do negócio, desmistificando a figura de Henry Ford como o empresário bonzinho, quase um santo que muitos treinadores da liderança insistem em disseminar (estes são aqueles treinadores que leram 2 livros e saem por ai dando curso de liderança, infelizmente ainda a maioria).

O mundo corporativo é repleto de mitos que funcionam muito bem para trainees desinformados e garantem o faturamento dos oportunistas. Você não escapa da menção de muitos treinadores do episódio em que Ford duplicou o salário de seus funcionários afirmando que a medida era justificada pelo seu desejo que seus funcionários comprassem seus automóveis, tornando assim o negócio sustentável.
O treinamento empresarial adora explorar este exemplo na tentativa de convencer os trainees do visionário Ford, do empresário sustentável e à frente do seu tempo. Só se esqueceram de ler história e descobrir que as fábricas de Ford estavam com um turno-over beirando ao insuportável e que ao mesmo tempo ele precisava de consolidar o novo sistema produtivo, o qual corria o risco de atrasos indesejáveis e a geração de problemas econômicos sérios para a Ford pela falta de profissionais com a nova especialização exigida pelo novo sistema produtivo, cada um em sua posição.

A medida mais acertada foi mantê-los na organização através de uma manobra salarial e bingo!!! Mais uma vêz Ford acertou.

Se todos os funcionários de Ford comprassem seus carros não impactaria em muita coisa no negócio, mas como instrumento de marketing seu discurso foi inatacável, tanto que até hoje ainda tem gente (pouco informada) que acredita no discurso do marketing de Ford.
Não estamos aqui tentando destruir Ford, muito pelo contrário. Foi um homem, empresário, empreendedor e inovador notável, como muito poucos na história, só estamos desnudando um mito corporativo exagerado que é disseminado por treinadores inescrupulosos e que vão lhe ensinar muito pouca coisa, ou nada mesmo.

Muito bem voltando à observação de Bauman e ao seu toque nevrálgico chegamos ao ponto de que os objetivos e os arquétipos do líder foram, agora, deslocados do público (coletivo) para o privado (individual). Sendo individual significa pode ser qualquer indivíduo, ou inúmeros arquétipos (dando Ford, Drucker e Fonda como exemplos) e sendo inúmeros arquétipos diluídos numa massa que não consegue mais identificá-los.
O objetivo da liderança, agora, não é mais o coletivo, mas o individual. E dá outros exemplos de como as massas reagiram, culturalmente. O próprio autor do livro examina que os líderes desapareceram e dá, icônicamente a razão deste deslocamento no trecho do livro em que disserta:

  • “Quando as autoridades são muitas, tendem à cancelar-se mutuamente, e a única autoridade efetiva na área. É por cortesia de quem escolhe que a autoridade se torna autoridade. As autoridades não mais ordenam : elas se tornam agradáveis a quem escolhe, tentam e seduzem. O Líder foi um produto não intencional, e um complemento necessário, do mundo que tinha por objetivo a boa sociedade, ou a sociedade certa e apropriada, e procurava manter as alternativas impróprias à distancia”

Bauman arrasa mesmo. E pior, sem defesa.

No trecho acima mostra claramente o que acontece quando a liderança perde sua identidade coletiva (seu link com o coletivo), que foi apenas uma função da mudança cultural da própria coletividade que, agora procura pelo individualismo coletivamente. Indo mais à fundo, a consequência acaba sendo que quando inúmeros indivíduos podem ser lideres ao invés da procura por uma identidade coletiva (agora muito mais difícil de se encontrar) acabam assumindo a postura do bons conselheiros na tentativa de serem escolhidos dentre os, supostamente liderados. Uma vêz que sua autoridade não é mais suportada pela sua capacidade de ordenação e de organização mas sim pela escolha de quem os contemplam. Bauman usa bem este termo “Conselheiro” com ironia no mesmo capítulo.

Indo mais à fundo ainda, aqui nasce o líder politicamente correto. Porquê politicamente correto? Porque tem de agradar aos liderados para serem escolhidos líderes, pois sua capacidade de liderar agora já não vale muita coisa diante da escolha dos liderados individualistas. Acabam sendo politicamente corretos (como a maioria dos treinamentos os vendem) e falsos, pois o politicamente correto não passa de jogo de cena para a ocultação das verdadeiras intenções dos indivíduos. Se quiser aprofundar-se um pouco mais no tema, recomendamos a leitura de Luiz Felipe Pondé.

Aí no rastro de Bauman, vem Barbara Kellerman (outro peso pesado) e escreve a icônica obra “O Fim da Liderança” (recomendamos que leia) e põe a pá de cal que faltava no assunto.
Numa linha diferente, mas paralela a de Bauman, ainda tráz ao cenário a questão ética entre líderes e liderados e dá outro tiro bem na mosca. Aliás a questão ética remete bem à abordagem de Bauman quando fala das escolhas dos líderes pelos liderados como um dos fatores que eliminaram os líderes do cenário do comum, do mais do mesmo e o enfraquecimento das lideranças. Quem achou Bauman complexo, ao ler Kellerman ficará arrepiado. Mas o fato é que ambos são assertivos e implacáveis. Líderes agora são raridade, pois tem de lidarem com questões muito mais complexas no seu relacionamento com os liderados e que não são tocadas, nem de longe, pelo curso de liderança mediano.
Apostamos que nenhuma das Empresas de Treinamento e Desenvolvimento, que pretendem lhe vender um Curso de Liderança, lhe falariam isto. Primeiro porquê não sabem e, se soubessem, teriam de evoluir tanto seus portfólios que acabariam ficando mais caros e o risco de perderem negócios no atacado seria enorme.
Acontece que Bauman e Kellerman não enterram a liderança. Enterram os conceitos obsoletos e coloca a liderança no seu devido lugar. O que Bauman não faz, pois não é o seu foco, e Kellerman faz muito bem, por ser seu foco, é enterrar a maioria das empresas de treinamento de liderança, relegando-as ao passado, à obsolescência ou à imaturidade mesmo.

Ambos percebem que a liderança é uma das mais notáveis, dinâmicas e complexas formas da manifestação humana e não será compreendida (neste caso mais aderente à proposição de Kellerman) com estudos de final de semana ou apostilhas impressas em word. Estas iniciativas não formarão líderes empresariais ou colaboradores que poderão serem líderes “de facto” e não “de jure” como quase 100 % dos líderes existem hoje nas diversas coletividades, empresariais ou não.
A leitura cultural do próprio tempo, com todas as suas complexidades, é a única coisa que pode definir o que é a liderança para nossos tempos. Nesta observação, mais um tiro bem na mosca. E a leitura do próprio tempo é complexa, exige mais do que mentes medianas.
Então ambos acabam por orbitar na seguinte proposição, que é a grave pergunta :

Como mentes gestadas numa cultura individualista, “ensimesmada”, que por definição despreza o coletivo ou quando o leva em conta é somente como instrumento para seus fins, e pouco informadas do seu próprio tempo poderão assumir a liderança “de facto” se, a liderança é um fenômeno coletivo, por excelência? Uma indagação complexa e paradoxal.

Resposta para a A Grave Questão.

Ambos, Kellerman e Bauman, apontam para a questão dos significados. A liderança, num mundo líquido, tem motivações líquidas e não há nada mais líquido do que os significados humanos.
Acontece que quando se toca no tema significados entra no cardápio dos relacionamentos questões como ética, valores e outras complexidades humanas, o que acaba por exigir das lideranças muito mais do que a objetividade do passado ou a objetividade sólida. A exigência agora é a compreensão da subjetividade do presente e exige sofisticação, exige um pouco mais do que ir para as redes sociais na tentativa de se fazer prosélitos.
Agora a sofisticação para a identificação dos significados mútuos e legítimos é a tônica da liderança contemporânea.

É por isto que a grande maioria (para não dizer todas) das empresas de treinamento vendem técnicas básicas da gestão de pessoas como curso de liderança, por não alcançarem as questões fundamentais da liderança do seu próprio tempo e nem por conseguirem lidar com a construção dos significados coletivos com competência. Estão encarceradas na própria cultura individualista e tentando vender para outros individualistas, uma fórmula coletiva.
A fórmula simplesmente não funciona. Como não funciona, é melhor vendermos algumas técnicas básicas da gestão de pessoas mesmo e disfarça-las de curso de liderança, vai garantir o faturamento.

Esta é a dura crítica de Kellerman e, pior, com razão.

A Liderança se tornou algo complexo pois é dinâmica e fruto do próprio tempo. Autores contemporâneos, de grosso calibre, já perceberam isto e levantam novas nuances a serem exploradas, ética e valores são somente um exemplo entre outros. Não somente Kellerman ou Bauman, mas outros como Peter Senge, o próprio Warren Bennis (da velha guarda), o dinamarquês Svend Brinkmann entre outros já trazem luz sobre o tema.
Mas os profissionais das Empresas de Treinamento e de qualquer matiz, seja do Treinamento in Company até a palestra mais simples que trata deste tema, ou se atualizarão encarando estudos, leituras, novas fontes e reflexões sérias ou continuarão ensinando o que já está ultrapassado como se fosse o State-of-the-Art da liderança.

Para terminar nossa resposta, acreditamos que fizemos um bom comentário, como nos pediu.
Não vire as costas nem para os autores e nem para as proposições do treinamento empresarial, apenas escolha de acordo com o seu critério o que poderia ou não agregar. Claro terá de conviver com uma gama pequena de boas escolhas, mas as terá sempre, em algum lugar, algo que traga um conhecimento de melhor nível comparado com a maioria que ainda está no mais do mesmo.

 


Fonte da Matéria : TrainerBr

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