Detonando a Palestra Motivacional


Detonando a Palestra Motivacional.

Nunca esperávamos por uma pergunta tão curta e baseada numa proposição tão complexa e extensa como a que foi proposta abaixo, mas enfim pedimos que nos perguntassem e agora temos de responder da melhor forma que pudermos.
Esta pergunta foi enviada à nós em 03.10.17, mas antes de efetivamente realizada, passa por uma elaboração enorme e de cunho claramente filosófico e irônico numa dura crítica às palestras motivacionais orientadas para o mundo corporativo.
A pergunta foi tão extensa que foi enviada por e-mail, uma vêz que não coube nos campos que reservamos em nosso formulário on-line para perguntas. Veja abaixo.

Elaboração do Leitor – A Palestra empresarial de motivação ou auto-ajuda.

O Título que nosso leitor utilizou foi: Críticas Filosóficas às Palestra Motivacionais.

Mintam, mintam por misericórdia.

Nelson Rodrigues.

 

No mundo coorporativo a vida não é fácil mesmo. Produtividade, competição, excesso de trabalho, neuroses de todos os tipos sendo despejadas torrencialmente sobre todos e durante todo o tempo. Isto faz com que a vida das pessoas se torne precária. Se parar para pensar bem sobre o assunto, verá que a vida funciona baseada nas precariedades em quase todos os lugares e na maioria do tempo.

O mundo corporativo não é diferente do resto do mundo e as precariedades estão sempre presentes.

Porém temos de levar em consideração que no mundo natural estas precariedades são originadas pelas leis naturais que regem a vida. Seus processos são, normalmente, lentos apesar de não serem nem um pouco menos implacáveis. Mas no mundo corporativo, as precariedades são turbinadas, deliberadas e inchadas pelas demandas originadas de seus modelos culturais, sempre.
Você nunca ouvirá no mundo corporativo algo do tipo, olhem estamos bem, não precisam se matar de tanto trabalhar, sejam parcimoniosos com seus horários, tudo está indo muito bem podemos trabalhar com um pouco mais de lentidão e com mais prazer, podemos até gastar um pouco mais. Como uma consequência natural da competitividade desenfreada, o mundo corporativo torna tudo cada vêz mais precário e esforça-se, sempre mais, para que a precariedade seja máxima.
Este impulso dinâmico e irrefreável acaba por tornar a vida, naturalmente precária, numa vida mais precária ainda, uma vida super-precária. Os resultados sobre seres humanos já são bem conhecidos. Stress, doenças coronárias, mentais, dificuldades de relacionamento, ansiedades, depressões, fadigas de toda a ordem e a lista não para de crescer até o suicídio já aconteceu por questões corporativas.

Nestes cenários, nada melhor e que funcione bem quando tem uma abundância de seu alimento para funcionar, as palestras motivacionais. Elas se alimentam da precariedade, o tempo todo e precariedade é o que não falta no mundo corporativo. Portanto as palestras motivacionais tem um futuro bastante promissor pela frente. Aonde não há precariedade, a palestra de motivacional morreria por falta de público.
As palestras motivacionais são direcionadas para pessoas, em sua maioria, neste estado precário o tempo todo. Grande parte do que elas oferecem, e inclua as de auto-ajuda, no mundo corporativo é a tentativa de fazê-lo um pouco mais feliz num mundo de precariedades artificialmente criadas.

Uma forma de droga barata para que você possa fingir que é uma pessoa feliz. Para fingir que é um colaborador ao invés de um funcionário descartável. Para você fingir que existe uma relação de fidelidade ou lealdade entre seus líderes, ou supostos líderes, e você. Ou entre a empresa e você. Para você fingir que um dia não abriu mão de um monte de sonhos, se é que em algum dia você os teve, para estar ali na organização lutando contra as suas precariedades. Para você fingir que não se sente meio humilhado quando um garoto, ou garota, de 25 anos aparece na organização para ser o seu chefe, e você beirando os 45/50 com muito mais experiência no negócio do que ele. E pior, tem grandes chances de eles te mandarem embora por obsolescência.

No fundo as palestras motivacionais são uma picaretagem pois ao invés de trazerem reflexões honestas e profundas, e os seres humanos precisam de reflexões honestas e profundas, acabam investindo na infantilização de suas plateias quando não os tratam como verdadeiros retardados mostrando como exemplos de superação pessoas sem braços que se tornaram exímios nadadores e outros miseráveis que não tiveram outra chance de se encostar numa situação confortável e acabaram tendo de se superar para não morrerem de fome ou qualquer outra tragédia similar.
Resumindo pretendem lhe motivar com a tragédia e a desgraça alheia tentando incutir na sua cabeça, ao invés de uma reflexão honesta, algo do tipo : olhe se este miserável e desgraçado conseguiu fazer algo da sua vida com toda esta deficiência, imagine você ai perfeito e com saúde o que não poderá fazer? Pela organização é claro.

Quando não utilizam-se da desgraça alheia, utilizam-se do sucesso alheio provocando-lhe a inveja como vetor de motivação. Mostram um indivíduo de sucesso. Quero ser igual à ele!!!!!!!
Você deixa de querer ser o que é e quer ser igual à outra coisa, menos você. Você não serve para a organização está claro? O que serve é o indivíduo que está correndo atrás de superação e sucesso. Nossa organização não quer fracassados e se você ainda não chegou ao sucesso, só pode ser um fracassado. Você, do jeito que aí está, não serve.

Claro que levar reflexões para o mundo corporativo é algo bastante complicado, pois o que o mundo corporativo tem interesse mesmo é pelo lucro. O seu bem estar ou mal estar, se não fosse algumas leis que lhe protegem, seria igual a dos chineses que trabalham 16 horas por dia e não tem direito à muita coisa à não ser trabalhar muito mais. O mundo corporativo não está preocupado com o seu bem estar, está preocupado com o próprio lucro e para que você produza mais se for necessário tratar você como um infantil, ou um retardado, que acha que poderá ser mais feliz absorvendo os pseudo-conceitos de uma palestra motivacional, então ele o fará e ponto final.

O que as palestras motivacionais visam é deixar você mais alegrinho, porque alegrinho você tende à produzir mais e ainda ganha como bônus a ilusão de quando chegar em casa e for assistir uma novela ou a repetição de um filme de pancadaria no horário nobre da televisão, sua vida terá algum sentido.

As vezes a condição humana é tão frágil e tão precária, você se da mal com a esposa/esposo, com os filhos, seu/sua amante ameaça expor tudo no face-book, o salário nunca dá até o final do mês, mora num bairro violento e ainda tem problemas de saúde, que a melhor coisa que se faz mesmo, ao invés de refletir e tentar achar uma saída para tudo isto, é assistir uma palestra que lhe diz que há um mundo espiritual na organização, que a empresa tem valores e seu maior patrimônio são as pessoas, que o que queremos é a sustentabilidade do planeta, que iremos ajudar as crianças da África e todas estas baboseiras direcionadas para colegiais retardados e que ainda se propôe como algo que pode fazer alguma diferença para a sua vida, que pode ser uma enorme mentira desmotivante.
A Palestra motivacional não passa de um paliativo ruim para pessoas infantis, por outro lado, quem vive neste mundo está numa situação tão precária que o melhor mesmo que podemos fazer é mentir uns para os outros, por uma mera questão de misericórdia.

Esta é a minha posição e quero saber de vocês, como empresa de treinamento, o que acham honestamente?

 

Resposta TrainerBr.

Toda a sua dissertação começa com uma frase de Nelson Rodrigues.
Antes de nos posicionarmos, esclarecemos para todos os outros leitores que Nelson Rodrigues foi um grande escritor, dramaturgo e cronista, está imortalizado como um dos expoentes da literatura brasileira e em sua obra não hesitou em denunciar a sordidez da sociedade e dos relacionamentos humanos.

Muito bem, o texto está bem caracterizado pelo seu posicionamento ácido, crítico, filosófico mesmo, é extenso e de profundidade. Não poderemos elaborar sobre cada uma de suas passagens, aqui não seria o fórum adequado para uma elaboração desta natureza e nem desta profundidade. Poderemos dar um posicionamento tópico, uma opinião sobre o que foi acima mencionado e pontuando aonde temos algo à dizer. E ainda tomamos o cuidado de deixar claro que nosso posicionamento não passará da sugestão de novas reflexões para quem nos enviou o texto e quem lê nossa resposta. Nada mais pretendemos além disto. Não temos respostas definitivas, de fato, ninguém as tem.

Somos uma empresa que tem em seu portfólio algumas palestras e a palestra motivacional não é uma de nossas atividades, nos dedicamos à palestras mais específicas e direcionadas à determinados temas. Logo percebe que não somos experts em palestras motivacionais, mas podemos dar uma opinião exclusivamente nossa, da TrainerBr. Pensamos muito antes de responder publicamente um questionamento tão complexo quanto que nos propõe.

O texto acima está correto, mas temos de entender melhor algumas nuances da vida.

Nem todo mundo vê o mundo da mesma forma que o filósofo, senão seríamos todos filósofos. Muito possivelmente quem escreveu o texto, ou ajudou à escrevê-lo tem uma visão bem crítica e filosófica sobre a Palestra Empresarial, mais especificamente às de cunho motivacional. Por mais assertiva que possa ser, sob a ótica do filósofo ou filósofos, não passam de suas percepções e interpretações que, por mais corretas que sejam, ainda assim podem não atingir todas as mentes e as formas como compreendem o mundo. Talvêz este posicionamento seja mais aderente à um ambiente cultural mais sofisticado, filosófico e crítico. Porém não cremos que, por mais assertivo que seja, ainda tenha a concordância de todos que o lerem. A dissertação é bem embasada, inteligente, ácida e com a cara de Nelson Rodrigues mesmo. Dentro deste espectro, correta.

Nem todo mundo se motiva pelos mesmos agentes, os mesmos vetores ou seja, o que para uns pode ser uma ação assertiva e motivadora, mesmo que temporariamente, para outros pode não passar de picaretagem como menciona no texto acima. Pessoas são diferentes, respondem à estímulos diferentes e percebem o mundo de formas diferentes. Assim é a vida na modernidade líquida de Bauman.

Nem todas as pessoas e empresas de palestras corporativas tem, exclusivamente, as intenções como mostradas no texto. Vemos sim que como em todas as atividades empresariais existem os aproveitadores, os maus intencionados e os legítimos e honestos em suas proposições. Identificá-los é aonde reside a dificuldade, mas nem todas as atividades empresariais tem as mesmas intenções apesar do lucro, fundamentalmente, ser o que sustenta uma organização. A motivação por levar um negócio à cabo pode ser a capacidade pessoal, o talento para àquela atividade e o prazer que se nutre em fazê-lo real, isto inclui as Palestras para Empresas. O indivíduo transforma um prazer pessoal numa atividade econômica, nada mais natural e toda a atividade econômica, obedece às leis da economia. Simples assim.

Como ministramos constantemente a Palestra de Liderança vemos pessoas realmente interessadas em liderar motivando outras pessoas à serem mais produtivas para que a organização alcance melhores lucros. Não é nenhum demérito e nenhuma intenção ilícita, é honesto que uma empresa para aumentar seus lucros procure motivar seus funcionários (falaremos dos colaboradores depois) e não vemos nisto nenhum motivo para reprovação. Ao procurar por ações motivacionais, a organização consulta o que há de disponível num ambiente de negócios à que tem acesso e as palestras motivacionais fazem parte deste assortment de opções. Podem ser boas, ruins, fracas, sofríveis e não induzirem à nenhuma reflexão? Podem! Mas também podem induzir ou despertar o interesse de seu espectador para algum tema que seja relevante para a sua vida ou sua atividade profissional. Não há uma fórmula, como bem exposto no seu texto, que seja infalível e as palestras motivacionais podem ser uma delas, ou outra de um espectro diferente qualquer.

Pessoas sempre são colaboradores das organizações. O nome que se dá, funcionário ou colaborador, é irrelevante, mera questão de semântica. No fundo todas as pessoas são colaboradores das organizações sob um contrato de trabalho que quando não for mais interessante para a pessoa, ela simplesmente, poderá pedir por rescisão e partir para o que mais lhe interessa no exercício de sua plena liberdade para decidir.
Do lado da organização, a mesma coisa. Quando um colaborador ou funcionário, use o nome que achar melhor, não tem mais o que agregar à organização nada mais natural que a organização procure realoca-lo numa outra atividade produtiva, o substitua por outro que agregue mais ou ainda elimine o cargo por ser desnecessário. Este colaborador não se encaixa mais no que a organização necessita e se a organização não o realocar, a única saída que terá será o seu desligamento da organização.
Uma relação de lealdade, em nosso entendimento, não significa que as organizações tem de levar pessoas improdutivas, ou que não necessitam nas costas. Lealdade é jogar limpo, ser leal à um relacionamento honesto e não criar um relacionamento de parasitismo em nome da lealdade, assim vemos as coisas.

Quando ao alegrinho, soou como algo irônico, mas vamos pensar mais profundamente, pois esbarra numa questão ética. Na Palestra sobre Ética vemos que sua definição é o esforço intelectual que realizamos para achar a melhor forma de convívio. Muito bem, se for de mútuo consentimento que a organização realize alguns eventos para deixar seus funcionários mais felizes, mais alegres e com isto poderá criar um ambiente de convívio melhor, mais produtivo e mais ameno, aonde está o problema? A intenção da organização está clara, ela quer aumentar a produtividade e não será deixando os funcionários entregues à própria tristeza e depressão que conseguirá atingir o seu intento. Também não se propõe uma palestra motivacional como a solução das tristezas e das depressões, mas podem ser ações válidas quando conscientes de que são transitórias e que, fundamentalmente, cabe ao indivíduo a responsabilidade pela solução de seus problemas emocionais e não a organização. As vezes um empurrãozinho pode disparar processos ou não, mas não invalida a iniciativa desde que adotada conscientemente.

Sobre a exploração da precariedade não há tanto que dizer está correto mesmo. As organizações existem porquê existe um mundo precário por recursos que estas produzem. Causa e efeito. Não se vende geladeiras para esquimós, eles não precisam pois não tem precariedade deste recurso. Nada mais natural. Se existe uma precariedade motivacional na organização, nada mais legítimo que ela procure por recursos disponíveis para atender esta demanda. Simples assim.
Caso não tenhamos nada mais efetivo e de curto-prazo, como as palestras motivacionais, serão elas mesmo que irão preencher esta lacuna. O que podemos levar em consideração é que existem recursos mais inteligentes e de longo prazo para a motivação de pessoas do que uma palestra motivacional e que não são utilizados pelas organizações, que tem demanda por soluções urgentes. Quando as organizações aprenderem algo mais efetivo, mesmo que de longo prazo, não tenha dúvida que adotarão no lugar das palestras motivacionais. As organizações querem e demandam por resultados e sempre farão algo, adotarão ações que lhes proporcionem os melhores resultados possíveis e que estarão ao seu alcance.

Com relação à precária condição humana, a vida é assim mesmo. Quando ministramos Palestras in Company, estamos perto das pessoas e muitas vezes percebemos que todas trazem consigo o estigma de seus problemas pessoais o que torna suas vidas mais precárias mesmo. Somos mais de 7 bilhões de pessoas com alguma precariedade, uns mais e outros menos mas todos tem alguma precariedade como marca indelével em suas vidas. As empresas não são e não podem ser responsáveis pela solução das precariedades particulares de seus colaboradores. À cada um dos 7 bilhões de pessoas cabe a responsabilidade de lidarem com suas precariedades, as organizações podem colaborar para diminuí-las, e algumas colaboram mesmo, dando cursos de educação financeira para seus funcionários, palestras motivacionais e ajudas de custo das mais diversas. Tudo isto para melhorar o desempenho dos funcionários e dos negócios, nada mais funcional, mas a responsabilidade pelas soluções de suas precariedades sempre caberá aos indivíduos.

Enfim, talvez esta seja a mais longa de nossas respostas, o texto está correto, mas temos de nos aprofundar mais no que propõe de reflexão. Como reflexão filosófica é perfeito e com um viés trágico, estilo Nelson Rodrigues mesmo.
Mas nada nos exime de procurar por outras abordagens para as mesmas proposições colocadas acima.

 


Fonte da Matéria : TrainerBr

Suporte Trainer Br : +55 11 5613-6515
Mobile : +55 11 96590-4955
E-mail : relacionamento@trainerbr.com.br