Instrumentalização – Treinamento de Liderança


Reflexões – Treinamento de Liderança

Pergunta enviada em 09.01.18:

Liderança, como comumente transmitida no ambiente empresarial, não está muito próxima da instrumentalização do outro? Ou mesmo não acaba na instrumentalização entre indivíduos?

Começamos 2018 com questões bem interessantes, esta é uma delas. Pedimos antecipadamente nossas desculpas pela extensão da resposta, mas uma pergunta desta natureza não tem uma resposta simples, principalmente sob o enfoque do treinamento empresarial, neste caso específico do curso de liderança contemporâneo.

A sua resposta é sim.

Uma breve análise crítica do material, fartamente disponível no mercado, o levará a esta conclusão. Basta observar afirmações do tipo:

  • “Liderança é a arte de influenciar pessoas para que determinados objetivos sejam atingidos”

Quer uma afirmação mais malhada do que esta e que revela, escancaradamente, o objetivo da instrumentalização do outro?
Apesar de muitas empresas de treinamento afirmarem estas “pérolas” da sabedoria corporativa, o fazem por falta de conhecimento ou profundidade no tema, ou por utilizarem linguagens demasiadamente simplificadas que acabam por não dizerem muita coisa do tema que se ocupam.

Resultado: acabam repetindo o que ouvem dos gurus, mesmo que não tenham significados.

Aqueles que ouvem estes gurus também não conhecem, e nem estudaram o tema, tudo fica no elas por elas. Um diálogo aonde quem não sabe muita coisa sobre algo ensina o que sabe, distorcidamente, para quem não sabe nada sobre este mesmo algo. E assim a liderança não acontece na organização e tudo acaba numa tentativa de instrumentalização entre indivíduos e pouco permeada de significados mútuos. Como resultado, a liderança simplesmente não acontece. O que acontece mesmo é a instrumentalização, que também não funciona, sob o espectro da liderança.
Bingo!!! Sua pergunta pôe um dedo numa ferida e numa realidade que faz com que muitos treinadores fujam do tema como o diabo foge da cruz.

 

Sutilezas não alcançadas pelo Curso de Liderança comum.

Não iremos falar dos portfólios e de nenhum curso de liderança específico, iremos falar dos conceitos e entenderá por quê a instrumentalização sem significados acontece e por quê o seu inverso é uma raridade, apesar de existirem umas poucas organizações que dão um enfoque maduro sobre o tema e ensinam liderança como se deve.
Como não iremos partir de afirmativas irrefutáveis (ainda não chegamos ao nirvana) iremos induzí-lo a algumas reflexões importantes, a primeira delas é :

  • Inevitávelmente pessoas relacionam-se umas com as outras e estas relações determinam influências. Estas influências pode chamar de “forças” e estas atuam de modo que as reações de um indivíduo possam ser fortemente afetadas por estas forças.

Por exemplo, se você tem um cão que late desesperadamente, o dia inteiro, ao lado da porta do seu vizinho, nada mais natural de que seu vizinho não vá reclamar com o cão. O seu vizinho irá reclamar mesmo é com você.
Agora imagine que esta reclamação seja no mais respeitoso e amigável dos climas emocionais (sem atritos), o resultado é que, nesta relação, o seu vizinho exerce uma força sobre você para que tome uma atitude e resolva o problema. Um objetivo deve ser atingido para que seu vizinho se sinta satisfeito e ambos possam viver sem um barulho incômodo.
Mesmo que seu vizinho se afaste, não esteja mais ausente, esta força continua agindo sobre você na forma de uma demanda não atendida.

Bingo!!!!

Seu vizinho está numa tentativa de instrumentalização de você para que resolva um problema que é ocasionado pelo seu cão (nada mais natural). É inevitável e consequência natural das relações que acabemos nos instrumentalizando uns aos outros em primeiras instâncias do relacionamento. Não é nenhum pecado as relações começarem assim. Acontece que a liderança não está na instrumentalização e muitos dos cursos de liderança simplesmente não o sabem.

Agora vamos adiante, ao cerne da questão.
Você delibera sobre a demanda do seu vizinho.
Após a sua deliberação, você chega a conclusão de que a demanda do vizinho é razoável, afinal ninguém gosta de um cão latindo na sua porta o dia inteiro. No momento que você considera razoável a demanda do seu vizinho, o que você está fazendo com esta demanda? Qual característica você esta dando a ela?
A resposta é: você está cedendo a legitimidade para a demanda do vizinho. Sua deliberação torna legitima a demanda. Por considera-la legitima, você irá agir. Se você não considerá-la legítima, seu vizinho pode procurar a lei que determinará, por imposição, se é legítima ou não, mas não entraremos nesta questão para não complicar demais a coisa toda. Levaremos em conta que você deu a legitimidade para a demanda do vizinho.

Neste momento seu vizinho o estará liderando, mesmo que a motivação para esta liderança seja um incômodo.
O que torna esta constatação interessante, e abre uma reflexão importante, é que o que motivou você a agir não foi a reclamação do seu vizinho. Foi a legitimidade, fruto de sua deliberação sobre as informações e demandas do seu vizinho.
Quando a instrumentalização se encontra com a legitimidade, nasce algo novo em seu lugar. Nasce um acordo legítimo para que seja alcançado um resultado interessante para todos e desejado por todos. Algo que sufoca a mera instrumentalização e transforma num alinhamento por interesses legítimos e comuns. Esta é uma das maiores carências de um grande número de organizações, talvêz a maioria e isto inclui as empresas de treinamento que não conseguem ensinar o que não sabem.

Se você é um líder, numa organização qualquer, por quê com o seu liderado seria diferente?

 

O pecado do Treinamento de Liderança Desatualizado.

Se uma organização não é um marinheiro de primeira viagem no treinamento para líderes e gestão de pessoas, peca gravemente por não investigar a liderança até este nível e fica, ano após ano, repetindo as mesmas fórmulas disfuncionais de motivação de pessoas e como influenciá-las.

Um dos nós da questão comportamental e da liderança é que pessoas são movidas a fazerem o que fazem pela legitimidade que dão para suas relações e para as demandas que são originadas delas.
Um treinamento empresarial que não tem habilidade, conhecimento ou outra condição qualquer para lidar com esta questão e mostrar para as mentes de quem treina que este é um mecanismo conceitual, sutíl e delicado (entretanto condicionante da motivação e da liderança), só poderá induzí-lo a uma instrumentalização ilegítima e disfuncional das relações entre líderes e liderados.

Ou pior, na tentativa desesperada de conseguir algum resultado, leva todo o seu time para um hotel fazenda aonde todos ficarão o final de semana pulando e gritanto “somos felizes”, se abraçarão, serão estimulados de todas as formas (num ambiente lúdico) a construírem o relacionamento (num final de semana) que sua liderança não conseguiu construir durante anos de relacionamento. Resumindo tentam a construção de um relacionamento permeado por legitimidade, mas não conseguem. Enganam bem, mas não conseguem.

Xiiiiiii. Não funciona, mas é mais fácil do que fazer você e seu time refletirem e pensarem, além do que, estes treinamentos empresariais não estão preparados para fazer mais. Uma mera questão de incapacitação.
Resultado = Instrumentalização sem legitimidade e a liderança não acontece, é lei da vida.

Carência de Abordagens filosóficas no Treinamento Empresarial.

A carência de abordagens filosóficas, honestas e maduras, é a razão para este estado de coisas nas organizações.
Claro, empreendimentos pragmáticos cujo objetivo é a produtividade, lucro, sustentabilidade, excelência e resultados não tem espaço para divagações filosóficas que não agregam valor algum ao negócio.

Hummmmm!!!!!

Pensamentos desta natureza revelam a grave miopia que muitos gestores e líderes ainda tem de sua função como orientadores e direcionadores de negócios.
Ora vamos pensar!
Relacionamentos sem legitimidade são pobres, improdutivos e não raro, desonestos. Legitimidade é uma consequência do saber ético. Ética é objeto de estudo, e reflexão, da filosofia. Portanto nada mais lógico que a abordagem filosófica seja um imperativo categórico para que suas consequências sejam compreendidas e desenvolvidas ou seja: ética, legitimidade e relacionamentos.

Mas este raciocínio não tem base empírica para sua sustentação, apesar de uma certa lógica. Dirão os contraditores de plantão, que não costumam realizar alguma reflexão antes de emitirem suas opiniões emocionais e precipitadas.

Acha que não? Então vamos as constatações empíricas, faça os 2 pequenos exercícios abaixo. Se sua organização não for muito grande, em 1 hora você já terá uma resposta. Se sua organização for das enormes, peça para seus gestores fazerem cada um em seus departamentos:

  • Ande pela sua organização e peça para cada um de seus colaboradores repitir a Visão, Missão & Valores da empresa. Depois disto responda a si mesmo. Os resultados mostraram que são legítimos?
  • Ande pela sua organização e peça para cada um de seus colaboradores repitir os valores éticos da empresa. Depois disto responda a si mesmo. Os resultados mostraram que são legítimos?

Ora se as organizações são as pessoas, aonde está a legitimidade de tudo o que está escrito na carta de valores da organização? Ou das pessoas que ali se agrupam por objetivos comuns?
Peter Senge dá um tiro certeiro, e duro, quando afirma que as organizações carecem de legitimidade (só funcionam sobre bases legais) e por esta razão não conseguem resultados extraordinários, a não ser por uma tacada criativa de sorte ou por reações naturais do mercado, mas estas constatações são as que os executivos detestam enfrentar. Por consequência é um lixo varrido para debaixo do tapete até que as crises aconteçam para mostrar quem é quem na gestão de negócios e pessoas. Organizações tem um ferimento enorme (que seus líderes não conseguem curar) e adotam como remédio o band-aid do final de semana no hotel fazenda.

Claro, quem acha que filosofia é improdutiva, que é para filósofos, ou para desocupados, não poderia acabar de outra forma.

O que motiva a sua pergunta (sob nossa interpretação) também é a constatação de que o treinamento empresarial (não somente as organizações) mostram este despreparo. Se pensou isto também, está correto.
Durante muito tempo a visão mecanicista das empresas de treinamento foi gestando toda uma constelação de portfólios, igualmente mecanicistas, que atenderam a uma demanda específica por conhecimento e informação. Até aqui nenhum problema, se esta era a demanda de épocas passadas, a solução foi bem pensada.
Acontece que a era da informação chegou ao seu fim. Hoje a informação está, fartamente, disponível na rede que pode conectá-lo com escolas, empresas, institutos de pesquisa e autores de qualquer lugar no mundo. A informação está disponível e a informação é cada vêz menos diferencial, apesar de ser importante.

Quando percebemos que o que falta não são pessoas informadas, mas pessoas que transformam a informação em sabedoria, em inovações consistentes, em ações sustentáveis e de longo prazo para as organizações, entrou no cenário o espectro comportamental como um enorme diferencial.
Quando o espectro comportamental se tornou uma necessidade evidente, um exército de profissionais (que nunca deram tento a reflexões filosóficas maduras) viram-se diante de um cenário para o qual não tinham as soluções adequadas (por falta de preparo), entretanto por uma falta de informação geral e por consequência da criatividade de um bando de despreparados, surge o treinamento motivacional. Olha que beleza, temos uma solução, pilhar as pessoas, pôr pilha (seja lá o que isto significa) como se diz na gíria contemporânea.

O pior deste cenário, é que por falta de melhores opções e por falta de preparo, também das organizações que contratam estes serviços (com um nivel de exigência baixo no tocante a temas conceituais e comportamentais), estas deram uma enorme corda para estas iniciativas vazias de reflexões e significados duradouros que tenham reais e aferíveis impactos no negócio. Já reparou que não existem indicadores motivacionais consistentes nas organizações e os, parcos, que existem se resumem em questionários que qualquer adolescente pode responder sem a minima dificuldade?

Hummmmm, foi o que imaginamos!

Éh!!!, mas o treinamento motivacional ainda vende, e muito bem, e faz um enorme sucesso. Para que nos esforçar, então, para fazer algo melhor e mais duradouro se em time que está ganhando não se mexe?
Isto se parece com acomodação? Falta de criatividade? Zona de Conforto? Uééé

Acontece que o resultado obtido foi tão pobre que líderes e colaboradores realmente motivados nas organizações ainda são moscas brancas. E os que existem não são fruto de uma fórmula do treinamento motivacional de final de semana ou do treinamento de liderança mecanicista. São fruto de seu preparo pessoal, técnico e conceitual. Sabem lidar muito bem com questões éticas, com a legitimidade e fazer os outros pensarem, mas ainda são moscas brancas (lembra-se da maiêutica de Sócrates?).

Chato né?

Ainda bem que existe a obsolescência.

Acontece que fórmulas assim costumam caducar rapidamente, pelo menos em ambientes que querem se desenvolver com alguma consistência lógica e comportamental.

Como consequência aparecem outras soluções mais sofisticadas como o coaching, mindfulness (que flerta com o conceitual e procura imitar a filosofia, apesar de muito mal) e outras, que também estão em fase de obsolescência, mas mostram que ainda há algo faltando e isto já é bem positivo. Há algo para ser desenvolvido e indica que ainda temos muito pela frente até a excelência no tocante ao desenvolvimento humano e organizacional, a liderança e em como motivar pessoas.

E este algo para ser desenvolvido aponta para abordagens filosóficas?

A resposta é sim, uma das constatações que aponta para isto é que a palestra empresarial, das mais demandadas em nossos dias, é a palestra sobre ética. Ué se minha organização já tem seus valores éticos definidos em sua carta de valores, pra que uma palestra sobre ética?
Está vendo com as coisas não são tão simples como parecem?

Então como iremos lidar com esta nova necessidade?

Como já respondemos a sua pergunta, esta é uma outra história que lhe contaremos em outra publicação.
Até breve.

 

Fonte da Matéria : TrainerBr

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